quinta-feira, 21 de junho de 2012

Projecto Alcantara - 12



Alcântara –  Na vizinhança do rio Tejo, esta área na periferia da cidade de Lisboa, tornou-se numa zona de expansão industrial em meados do século XIX, quando mais terra foi conquistada ao rio através de aterros, para a construção de novos edifícios industriais, armazéns e edifícios associados á actividade da pesca, comerciais e portos de recreio.
A maioria destes edifícios industriais, que cobrem uma grande parte da zona de Alcântara estão nos dias de hoje, sem uso e abandonados por se terem tornado na sua maioria obsoletos. Muitos foram sujeitos a alterações e extensões, como resultado da inevitável evolução que as várias industrias em questão sofreram ao longo de mais de um século, mas o seu futuro passará agora pela demolição de acordo com alguns estudos realizados para a modernização de Alcântara.




Imagem de Alcântara, com as industrias em funcionamento.



Imagem do mercado de Alcântara, tirada em direcção à rua do Prior do Crato em 1940.



Imagem do mercado de Alcântara, de 1939.


O tecido urbano foi‐se desenhando ao longo do tempo a partir das indústrias e das suas necessidades estruturais, muito dependente da ligação entre o centro (onde se localizavam os escritórios e os locais de consumo) e a periferias (onde se encontravam os pontos de produção), fazendo com que as principais vias até aos dias de hoje sejam as paralelas ao rio como por exemplo a Rua do Prior do Crato/ Sacramento a Alcântara ou a Avenida 24 de Julho.



Mais tarde, o inicio do século XX determinou uma intensa urbanização, maioritariamente de carácter ilegal, este facto entre outros resultou num desenho urbano muito irregular, os quarteirões apresentam diferentes tamanhos e formas, a zona apresenta um tecido urbano e social fragmentado, que precisa de uma intervenção urgente de planeamento, o plano de urbanização deve definir os critérios de transformação do território. 
Em Alcântara–rio (a sul da linha de comboio) por ser uma zona planeada e construída mais recentemente as ruas são ortogonais e não se verificam os defeitos da zona mais antiga.

Alcântara é nos dias de hoje local de afluência e passagem de importantes vias de comunicação,  rodoviárias e ferroviárias, que fazem a ligação da cidade, centro de comércio e trabalho (do qual cada vez mais Alcântara faz parte), aos seus arredores, zonas maioritariamente de resistência como os concelhos de Oeiras, Cascais ou Sintra.

Alcântara encontra-se então no principio deste percurso, realizado diariamente por milhares de pessoas, mas cada vez mais actividades e locais de interessem conferem a esta zona uma maior centralidade, sendo que o projecto proposto das residências artísticas parte desse mesmo pressuposto, que este local de passagem de importantes vias de comunicação,seja cada vez mais também de destino e de permanência, parte integrante do centro da cidade.


Continua a ser uma zona portuária e a importância da doca de Alcântara é cada vez maior, as trocas comerciais por via marítima representam uma actividade cada vez mais importante para a cidade, sendo também muito lucrativa. A doca representa a principal actividade na zona,  tem uma grande capacidade de processamento de mercadorias e está feito um projecto com o objectivo de aumentar ainda mais essa mesma capacidade através da renovação do troço ferroviário que liga a doca á linha de cintura que passará a ser subterrânea e electrificada, evitando a morosa locomotiva a diesel que faz esta ligação que tem pouca capacidade e obriga a paragem do transito rodoviário durante algum tempo. Diminui também o trânsito de veículos pesados de mercadorias nesta zona de Lisboa por já não ser necessária a sua ida até á doca.



Fotografia recente da doca de Alcântara. 

Do lote em que será inserido o programa, o edificado circundante acaba por não ser a presença mais importante, a maioria são edifícios velhos de formas variadas e irregulares e o destino de muitos, como vimos anteriormente, passará pela demolição e construção de novos edifícios. 
Existem projectos feitos para este local, a zona de Alcântara foi alvo de um estudo feito pelos arquitectos Frederico Valsassina e Aires Mateus, o "Alcântara XXI" que previa nove empreendimentos e um investimento global de 600 milhões de euros até 2012 que na sua maioria não avançam por falta de financiamento.
O `Alcântara XXI` previa a requalificação de uma área de 43 hectares, parcialmente ocupada por unidades fabris obsoletas, devido à desactivação das actividades industriais tradicionalmente instaladas nesta zona desde o início do século. 
Do ponto de vista das vias de acesso, o estudo constatava que a Ponte sobre o Tejo ou o prolongamento da Avenida de Ceuta, através da Rua de Cascais, acabaram por quase isolar a zona, constituindo-se como barreiras que condicionam as ligações à cidade.
Neste âmbito, o Plano Director Municipal (PDM) prevê a reformulação do nó de Alcântara, a integração urbanística das infra-estruturas de transportes e a ligação ao rio como medidas fundamentais.

Mais recentemente foi elaborada um "plano de urbanização" de Alcântara por uma equipa de arquitectos liderada pelo arquitecto Manuel Fernandes de Sá, que prevê a recuperação de velhas áreas industriais e ferroviárias devolutas e o reforço da relação entre os vários meios de transporte público.
O "PU de Alcântara" dá também relevo às redes de circulação (percursos pedestres e para bicicletas) que articulam a frente ribeirinha com os percursos históricos, os espaços verdes, os equipamentos e os transportes públicos. São também previstos neste plano conjuntos imobiliários ao longo das avenidas de Ceuta, da Índia e 24 de Julho, empreendimentos que terão uma forte ocupação terciária, prevendo-se a instalação de sedes de empresas, equipamentos e serviços, complementados por instalações hoteleiras e habitação. É também proposta a criação de novos parques de estacionamento que segundo este plano fazem falta a zona de Alcântara. O Plano prevê por ultimo, uma estrutura ecológica contínua, que relacione o estuário com o vale de Alcântara e Monsanto, e avança com sugestões para a redução dos riscos naturais como a construção de bacias de retenção de água ao longo do vale.


Uma vez que, segundo estes e outros estudos, o edificado circundante será na sua maioria renovado considero que as presenças mais fortes acabam por ser as vias de comunicação rodoviária ( Avenida 24 de Julho, Avenida da Índia e a Rua de Cascais), a linha de comboio, as estruturas da Doca de Alcântara e a ponte sobre o Tejo.

Do edificado destaco o edifício do museu do oriente, bem como os que se situam a sua volta, a fachada da avenida 24 de Julho (que termina antes de começar o lote), os edifícios de habitação do Arquitecto Frederico Valsassina (uma parte do "Alcântara XXI" que foi executada), e os edifícios das docas.


O sitio de intervenção é muito grande tem cerca de 40000 m2 divididos em 3 lotes. Estes lotes são também de grande dimensão e fazem com que exista pouca circulação pedonal, principalmente no lote do 31 da armada e no lote triangular junto á estação de Alcântara-mar em que não podemos entrar e os perímetros são grandes demais não promovendo por isso mesmo a circulação pedonal.

 Assim sendo a definição de quarteirões mais pequenos e a promoção de circuitos mais directos entre alguns pontos importantes foi a minha primeira preocupação. Desses pontos importantes destaco o limite poente do lote triangular que fica junto á entrada do túnel que dá acesso ao lado do rio e á estação de comboios, o ponto onde se encontram a Avenida 24 de Julho e a Rua Vieira da Silva por dar acesso ao movimentado inicio da Rua do Prior do Crato e por ser o “centro geográfico” dos lotes a poente, e o ponto em que se cruzam a Rua Gilberto Rosa e a Rua do Arco a Alcântara que dão acesso ao jardim e á praça da armada e á rua do Prior do Crato. A criação de percursos pedonais directos entre estes pontos era a meu ver muito importante, bem como a sua ligação a um novo ponto que criei em frente ao edifício da Armada. 
Este novo ponto de encontro para além de dar acesso aos pontos já referidos faz ainda 3 novos acessos, á rua tenente Valadim (que dá acesso a travessia pedonal da Av. Infante Santo) e á Rua do Arco a Alcântara, ambos em Rampa, e á Praça da Armada contornando o edifício da armada (acesso que já existe mas não era percorrivel). Divide-se assim em 4 quarteirões mais pequenos o antigo quarteirão anteriormente limitado pela Avenida 24 de Julho a sul, a Rua Tenente Valadim a nascente, a Rua do Arco a Alcântara a norte e a Rua Gilberto Rosa a poente, que era um enorme “tampão” com 890 metros de perímetro que desencorajava os percursos a pé nesta zona da cidade.
Torna-se também acessível o espaço anteriormente fechado, que fica imediatamente a sul do 31 da Armada, este local assume maior importância por nele se cruzarem estes novos percursos pedonais criados, atraindo publico para as residências artísticas, funciona também como miradouro uma vez que está cerca de 7 metros acima da cota da Avenida 24 de Julho, é limitado pela fachada sul do 31 da Armada e está enquadrado com o edifício do Museu do Oriente. Este enquadramento é realçado pela criação de dois volumes no alinhamento de ambos os limites da fachada sul do 31 da Armada, sendo que um deles, a poente, é o White Cube (salas expositivas).
A ligação pedonal entre o miradouro e as ruas a poente/norte é feita através de várias rampas, que sobem e afunilam em direcção ao miradouro bem como os volumes ai criados sendo que o primeiro, imediatamente asseguir ao edifício do 31 da Armada de planta triangular, é mantido uma vez que foi recentemente recuperado, e integra-se neste conjunto que  direcciona para o miradouro e para o White Cube quem circula naquela zona da cidade, criando um ponto de confluência de vários percursos naquele espaço, o que é vantajoso para um espaço expositivo como o White Cube. 
Criei uma nova praça no cruzamento das ruas Gilberto Rola e Rua do Arco de Alcântara, através da demolição dos dois edifícios, já bastante degradados e sem uso, que ali existiam. Esta nova praça recebe as pessoas que vem da Rua do Prior do Crato e da Praça da Armada, que são as zonas mais movimentadas de Alcântara. Esta nova praça está alinhada com uma das rampas que dá acesso ao miradouro e ao White Cube, a principal e de maior dimensão, atraindo desta forma mais publico para aquele local.
É também nesta pequena praça que se iniciam outros percursos que atravessam o sitio do projecto e dão acesso a partes do programa, como por exemplo o Black Box e as residências, ou a outros pontos importantes que não fazem parte do projecto, como os transportes públicos da 24 de Julho e o acesso ao túnel pedonal que atravessa a Avenida da Índia e dá acesso aos comboios da linha de cascais e a Alcântara-mar. Desta forma mesmo quem não tem como destino nenhuma das partes do programa do meu projecto, poderá atravessa-lo tendo outros destinos e desta forma dar mais vida ao sitio e criar até visitantes de ocasião aumentando a afluência aos espaços expositivos.



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